Deguste vinhos, saboreie histórias!

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* por Zé Luiz Tavares

Sozinho Não faz muito tempo que comecei a beber vinho. Aliás, sou meio tardio nessa questão etílica. Até  os 18 anos não colocava uma gota de álcool na boca e até os 29 anos, praticamente, comprava  bebida pra decorar o bar de casa. Foi dos 30 pra frente que comecei a tirar o atraso. Mas a  preferência ainda era o whisky. Chegando aos 40, me deparei com o vinho em ocasiões sociais,  jantares com amigos e fui me afeiçoando à bebida.
Principalmente, porque atrás de cada rótulo  tinha sempre um monte de histórias interessantes  como o tipo de uva, o local onde foi cultivada, o  enólogo que elaborou o corte (ou mistura de  vinhos, em português claro), a tradição do produtor e  os séculos e séculos de conversa para esse  vinho chegar até a minha taça. Curioso no tema, procurei uma loja de vinhos e me inscrevi naqueles  cursinhos de dois dias. Lá,  aprendi bastante coisa, mas principalmente conheci pessoas que me  apresentaram outras pessoas,  que me convidaram para frequentar uma confraria, onde conheci  mais e mais pessoas.Todas elas, ou pelo menos uma boa parte, sedentas por vinho e por histórias sobre vinhos.E se hoje sei alguma coisa sobre o assunto é porque passei mais horas ouvindo essas pessoas do que propriamente bebendo. Claro que, como diz um grande amigo, “litragem” é fundamental.
Não dá pra entender de vinho sem beber vinho, muito vinho. Mas de nada adianta beber muito se você não presta atenção a nada. Manter o ouvido atento e a mente aberta é tão importante quanto manter a taça sempre cheia. Costumo dizer que a audição é o sentido que falta para se apreciar um bom vinho. E o mais irônico é que atributos como cor (visão), aroma (olfato) e sabor (paladar) só começam a ser de fato percebidos, depois de você ouvir muito sobre o tema. Daí, você me pergunta: de que adianta saber de tudo isso? Só para impressionar os amigos? Daí, eu respondo: isso, também! É legal um amigo te ligar pra pedir sua opinião sobre qual espumante servir no casamento da filha ou contar uma história curiosa pra animar o jantar dos amigos. Afinal, bons relacionamentos são cultivados à base de boa conversa! Mas o mais interessante em conhecer sobre vinhos é saber comprar vinhos. É entender o significado de cada palavrinha complicada que os produtores colocam no rótulo. É poder prever, mesmo que minimamente, o que se vai encontrar ao abrir a garrafa. É saber avaliar se o preço que estão pedindo é justo, é uma mamata ou uma armadilha para desavisados. Com informação correta, é possível comprar o vinho certo para aquele prato especial que você quer preparar no domingo, para, claro, impressionar a família e os amigos. Enfim, entender de vinho não é chatice, nem frescura, é conhecimento útil que pode fazer diferença no seu dia a dia.
À bem da verdade, a gente nem precisaria adquirir esse conhecimento se o vinho tivesse feito parte da vida de nossas famílias como ocorre na Itália, na França, em Portugal, e em quase toda a Europa. A história do Brasil – primeiro com a ganância da corte portuguesa e depois com os enormes impostos e barreiras comerciais a importação – foi bem cruel com as nossas taças. Mas não adianta reclamar sobre o vinho não bebido. O negócio é fazer como eu fiz quando comecei a beber: tirar o atraso.
E essa é a ideia desse espaço aqui no portal Viver em São Caetano. Estaremos juntos, quinzenalmente, contando histórias interessantes e dando dicas sobre esse apaixonante mundo do vinho, para que você possa conhecer cada vez mais sobre esse tema e aplicar os conhecimentos no seu dia a dia. Talvez com esse texto inicial você não tenha conhecido muita coisa sobre vinhos. Mas pelo menos conheceu um cara que gosta um bocado de contar histórias sobre esse assunto.
Até a próxima história!

Making of
Escrevi esse texto durante uma viagem ao Canadá. E saibam que aqui também tem vinhos bem interessantes. Enquanto teclava, sorvia goles desse tinto, de corte, safra de 2013, produzido em Okanagan Valley, na British Columbia. Um vinho leve, fácil de beber, com acidez um pouco acima do desejável e preço bem interessante: CA$15,00 (mais ou menos R$ 45,00). Note o nome do vinho: :”Talking Stories”, ou “Contando Histórias”. Preste atenção no rótulo: um enófilo com cara de arrogante, levantando uma taça e com a outra mão para trás. Ao girarmos a garrafa, percebe-se que ele está com os dedos cruzados, numa clara menção que, nem tudo o que se conta no mundo dos vinhos é a mais exata expressão da verdade. Inspirador, não acha? Saúde!


Zé Luiz Tavares (eu@zeluiztavares.com.br) é redator e planejador publicitário e consultor de marketing. Criador e apresentador do podcast “Ouvindo Vinho”, co-criador da feira de vinhos Wine Weekend São Paulo e produtor de eventos enogastronômicos em resorts pelo Brasil. Já participou como jurado de vários concursos internacionais, é colaborador da revista Vinho Magazine e agora aqui do portal Viver em São Caetano.

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