Riscando fósforos e soprando apitos

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lupercio *por Lupércio Rizzo

Vou começar este artigo elencando algumas coisas que desafiam nosso ânimo e  paciência no dia a dia.  Fim de férias; torcer para um time que foi rebaixado; ir a uma  festa em que não se conhece ninguém; assistir a aula que você menos gosta; manchar a  roupa na hora do almoço e as sucessivas notícias sobre corrupção. Enfim, poderíamos  ficar aqui falando por horas sobre como nos manter animados diante destes fatos.

Mas o assunto que quero abordar é o mesmo que já tratei outras vezes: Ética e  Felicidade. Como diz a música: “levanta sacode a poeira e dá volta por cima”. E omo tem  sido difícil levantar a poeira e dar a volta por cima, em tempos de profunda crise de  valores em nosso pais.

A todo momento temos um escândalo, ou melhor dizendo uma continuidade nas  notícias de desmandos éticos. É errado chamar os atos de corrupção de escândalo, pois isso significa “indignação, perplexidade ou sentimento de revolta provocados por ato que viola convenções morais e regras de decoro”. Mas só ficamos perplexos ou escandalizados quando acontece algo novo, alguma coisa que nos surpreenda, o que evidentemente não é o caso.

Podemos até ficar surpresos com algum desvio de caráter em uma ou outra área, mas não com a falta de honestidade. Em outras palavras, temos novidade na forma, mas não no conteúdo. O perigo é ficarmos anestesiados e colocarmos as coisas no automático. Quando pensamos em educação e ética corremos o risco de ficar na mesma cesta das coisas difíceis, a exemplo de recuperar o ânimo após as férias ou ter de ir a uma festa onde não conhecemos ninguém.

Como ensinar a não sujar o chão em uma rua sem saneamento? Como ensinar a ouvir som em volume razoável em uma casa, onde o grito é a forma comum de diálogo? A nós educadores, profissionais ou não, cabe buscar forças de superação, motivos para esperança, continuarmos firmes defendendo que devemos devolver o troco certo, pedir licença, indicar por competência, usar o que é nosso e preservar o que é de todos.

Esses dias recebi a visita de uma ex-aluna que acaba de sair da adolescência e veio conversar comigo sobre futuro, sobre carreira e sobre a vida. Foi minha aluna quando tinha entre 13 e 14 anos. Fiquei muito feliz com a visita e, sobretudo, percebê-la preocupada com o mundo em que vivemos.

Mas o que me deixou ainda mais feliz em sua visita foi o fato de que, mesmo sem saber, ela veio reforçar meus votos em um mundo melhor. O que ela veio fazer aqui? Lembrar um professor que aquilo que fazemos agora ecoa no futuro, que uma palavra pode mudar uma vida e que, por mais que tudo pareça perdido, é nosso dever riscar fósforos em meio à escuridão para mostrar que ainda estamos aqui. Soprar o apito tal qual a Rose, no Titanic.

* Lupércio Rizzo é  doutor em Educação pela USP, mestre em Educação e pós-graduado em Docência Universitária e graduado em Pedagogia.  Atualmente é coordenador de Pós-Graduação no SENAC, pesquisador da Capes/Inep, com participação em pesquisas voltadas à educação e inclusão social, consultor e palestrante em eventos e congressos direcionados à educação, gestão intelectual e formação de professores.

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